Meu Pai



Quem dera pudesse pensar que datas comemorativas são mero prazer da mídia ao elaborar propagandas que detonam ás nossas mentes através do marketing apelativo.
Seja natal ou ano bom, seja dia dos pais ou datas em que o emocional é invadido por dores da alma, me sinto abalada e, até me deixo “sacudir” por lágrimas.
Mas, e quando o assunto é pai... Aí o bicho pega mesmo. O meu velho já embarcou prá outra estação, onde todos adquirimos o bilhete e fazemos o check-in logo na chegada; se a passagem terá maior validade não sabemos e não importa; O que resta mesmo é segurar às nossas bagagens e enfrentarmos o peso que ela nos oferecerá com brilho nos lábios, e com perseverança. Claro que gostaríamos que o fardo fosse leve, porém se quisermos nos sentir confortado, basta olhar o que o nosso vizinho carrega, e agradecermos pelo o que possuímos.
Somos impelidos ao questionamento e as lamúrias, e assim perdemos um valioso tempo, trôpegos pelos anseios e dores da alma. Desaprendemos a o que aprendemos e, buscamos o conforto nas palavras para saciar a nossa sede. Somos eternos insatisfeitos.
E se o assunto é pai, vale ressaltar como desejamos que eles fossem mais piedosos diante das nossas teimosias e queixumes, diante dos nossos pedidos e questionamentos, diante das nossas reclamações. Mas, acredito que até os pais se sentem “incomodados” com o desconforto que causamos, e com a ânsia que tem de nos proporcionar o melhor. E o tempo passa, e ambos se descobrem diante do que foi acontecido como se quisesse voltar o tempo. Lastimável ou grandioso o fato é que nada pode retornar: o que vivenciamos sejam fatos bons ou ruins, ficam inertes num passado longínquo, onde as lembranças são insustentavelmente a marca do que passou.
Sou órfã: sinto-me só, sozinha, sem o olhar severo, mas acolhedor do meu pai, sem as suas reclamações, sem as surras que me aplicava como se quisesse demonstrar que ele era o superior – e eu não entendia, que em sua ignorância de homem sofrido, calejado pela vida, foi a maneira que encontrou para me abrigar, me proteger do mundo tão grande que me engole.
As suas palavras riscavam o espaço com a força de um raio, com o estrondo de um trovão numa noite de tempestade. Todavia, tão logo passava, raios cintilantes de aconchego e amor vislumbravam para acolher a minha existência... E hoje? Hoje eu sou só. Mas não tão só porque sou pai e mãe.

Comentários

  1. Kátia,

    Ninguém está de todo sozinho. Temos, todos, a nós mesmos. Podemos conversar com o nosso eu interior e descobrir se ele continua lá, onde deveria estar. Se até este, o nosso eu, nos abandonou, então, estamos irrediavelmente sós, porque nem a nós mesmo escutamos.
    "Não fiques só, vou contigo. Se murmuras, escuto. Se erras o caminho, acompanho-te."
    Beijo grande,
    Herval

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  2. Herval,
    Por ser um ser social e - comunicável - o homem necessita em sua essência de se sentir aconchegado e sentido por seu semelhante, e com esse trocar experiências, as quais compartilhadas formaram um todo. Quanto ao nosso eu interior, mesmo os que creem no vazio da alma, estão condicionados a sua amargura, a qual certamente lhes fará companhia para que possa refletir.
    Daí, que "nenhum homem é uma ilha", vez que o isolacionismo não é parte da nossa espécie.
    Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos seus amigos ou a sua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano. E por isso "não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.
    Um beijo

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